11 junho, 2015

Odeio o dia dos namorados...

Sim, eu odeio
Não, eu não tenho nenhum trauma com relação a esse dia
Sim, eu tenho um namorado
Sim, ele me ama
Sim, estamos muito bem
Essas são minhas respostas para as perguntas de pessoas que, inconformadas pelo fato de eu não me derreter por esse monte de coração espalhado, insistem em cutucar minha vida em busca de algo que justifique a minha aversão a uma data estritamente comercial e que não significa nada para mim.
12 de junho é dia dos namorados e daí?
Todo dia é dia de alguma coisa, temos dia do índio, dia da árvore, dos avós, dos tios, do periquito e do papagaio, todo dia alguém comemora alguma coisa e eu prefiro comemorar os dias que me dizem algo.
Não aconteceu NADA que trouxesse significado especial na minha vida em 12 de junho, não sei porque diabos as pessoas acham que eu tenho a o-b-r-i-g-a-ç-ã-o de comprar um presente pro meu namorado nesse dia... Ou sair para jantar... Ou fazer sexo em um motel bacanudo.
Eu detesto presentear por pressão, se tem algo que tira toda a magia de um presente é isso, quando pressionada, eu olho mil vezes todas as lojas da cidade e não acho absolutamente nada, eu não gosto quando as coisas não são espontâneas e já me basta que isso ocorra no aniversário dele...
Detesto ainda mais esperar horas para poder sentar para jantar em um lugar que eu gosto, pior ainda é saber que provavelmente esse lugar subiu os preços no dia porque é dia dos namorados e ao olhar para a porta eu vou ver mais meia dúzia de casais doidos para que eu me exploda para que eles possam comer também, que lindo...
E a parte da obrigatoriedade de comparecer no dia?
Mimata!
Primeiro que fazer sexo porque é dia de alguma coisa é um pé no saco e eu du-vi-de-o-dó que eles limpam os quartos com o capricho necessário entre um casal e outro, afinal, tempo é dinheiro, né? E o tempo que eles perdem desinfetando um quarto pode ser aquele que um casal apaixonado decide procurar um motel mais rápido, capitalismo é capitalismo e eu prefiro não me arriscar nisso...
Mas, apesar de implicante com essa coisa toda, eu sou uma pessoa feliz e respeito quem acha lindo de morrer receber aquele buquê enorme de flores (eu detesto também, não me dá flor que não sou defunto rs), aquela cesta breguíssima de café da manhã (não me acorde porque meu mau humor é de matar e eu tenho enjoo matinal) e dar naquele motel luxo (recanto da cândida), só quero que as pessoas respeitem que eu não curto essas coisas aí e isso não me faz amargurada, em mal amada, talvez um pouco racional demais e nada romântica, mas é só...
E caso interesse: também não trocamos presentes de natal e nem de aniversário de namoro, mas nesse último nós costumamos sair para comer e nos curtir, porque esse sim é um dia especial para nós e nos outros dias do ano, a gente faz muita coisa junto, porque todo dia é dia de namorar e ser feliz com quem a gente ama. :)

02 dezembro, 2013

Algumas verdades engasgadas...

Já me declarei machista, enchia a boca e dizia com todas as letras que sim, eu era machista, na verdade, eu só era jovem demais pra entender o que realmente significava ser mulher no mundo machista, eu ainda sou jovem e ainda estou descobrindo o que é ser mulher nessa sociedade porca e eu já aprendi que...
Sendo mulher, eu preciso me resguardar de um milhão de coisas pq um passo em falso e minha reputação jamais será a mesma, oi? Como assim?
Assim!
Você namora/pega um cara, vocês são felizes e tem a tara de se filmar no ato sexual, coisa que muita gente faz, mas aí, um belo dia, vocês terminam e esse cara acha legal mandar o vídeo pra um amigo, provavelmente dizendo "olha, cara, como ela é uma vadia!"... isso mesmo, V-A-D-I-A!
E você, pessoa que se esforça pra ganhar a vida de forma honesta, trabalha, estuda e tem uma vida normal, de repente está no meio de um furacão, de repente recebe propostas indecentes para fazer programas e não mais que de repente tem fama de puta, isso mesmo, P-U-T-A!
Aí, quando você diz que a mulher só estava fazendo no vídeo o que todo mundo faz, você é obrigado a ouvir que ela foi idiota de ter deixado filmar e que por isso merece o pesadelo que está vivendo, é, isso mesmo a culpa é DELA que confiou, que provavelmente só satisfez a vontade do babaca de filmar o ato.
E você ainda precisa escutar que todo mundo sabe que não se deve confiar em ninguém... oi? Você está na cama com outra pessoa, ali, nu e mostrando seu lado mais primitivo, trocando fluídos e não, você não deve confiar nessa pessoa, eu acho absurdo e mais, eu acho nojento quem pensa dessa forma.
Só por ser mulher a sua opinião e o seu trabalho valem menos, você tem que tomar cuidado com a roupa que usa para "não provocar um estupro", precisa pensar bem antes de falar para não apanhar por "ter provocado", tem que tomar cuidado e andar olhando para baixo na balada, assim ninguém pensa que você está dando bola e invade o seu espaço, mas o pior, é ser julgada por ter feito exatamente o que uma vida inteira você ouviu que deveria fazer, ser "uma puta na cama", sim, pq é isso que a sociedade machista diz, que a mulher deve ser uma dama na mesa e uma puta na cama, mas se você é uma puta na cama e os outros sabem/sonham/desconfiam ou assistem, você é uma puta na vida, você não presta e não tem direito de andar de cabeça erguida.
Sim, de pessoa normal, de repente, a VÍTIMA do porn revenge, vira uma vadia, uma puta, uma vagabunda e o que ela fez pra isso?
SEXO! Só isso, ela fez sexo, nada além de sexo e sinto muito, queridos machistas, AS VOSSAS MÃES TAMBÉM FIZERAM/FAZEM SEXO E PROVAVELMENTE, TAMBÉM JÁ PAGARAM/PAGAM BOQUETE PARA OS SEUS PAIS (E TALVEZ PARA OUTROS HOMENS), convivam com essa realidade agora. Beijos!

17 outubro, 2013

Ressignificar, perdoar, esquecer...

... tenho dificuldade de fazer tudo isso e sinto cada vez mais necessidade de aprender.
Aprender a ressignificar o que certas pessoas são na minha vida...
Aprender a perdoá-las...
E principalmente a esquecer, ou o que me fizeram ou a elas mesmo...
Mas não consigo...
E nisso, eu passo dias chateada...

05 outubro, 2013

Tenho dificuldade para deixar as coisas irem embora, não gosto de mudanças, nem de visual e muito menos de vida...
Planejo o futuro de uma forma assustadora, penso em tudo, em cada detalhe, em cada opção e possibilidade, não me prendo a nada disso, é só uma forma de lidar com as mudanças... se já pensei nisso antes, não me assusta mais...
Mas me prendo ao passado, na verdade, aos afetos do passado, tenho dificuldade para entender que o que eu sinto não é carinho por aquela pessoa, eu não a conheço mais, eu sinto afeto pelo que eu vivi, pelos momentos, mas tenho notado com certo pesar que algumas pessoas nada me dizem, ou pq fazem parte do passado ou pq, mesmo estando sempre por perto, não fazem ideia do que eu me tornei, de quem eu sou, do que eu gosto ou ainda, no que eu acredito, criamos um contato social, temos conversas vazias que nada me contam sobre quem elas são e que nada dizem sobre quem eu sou, mas que parecem nos dar um estranho direito de tecer comentários e fazer julgamentos... 
Tenho mudado muito nos últimos tempos e cada vez mais quero conviver só com uns poucos e bons, com quem me conhece, com quem me deixa leve, conhece minhas risadas, minhas piadas, meus olhares e principalmente, meus sonhos, quero conhecer cada detalhe desses e saber que torcemos um pelo outro genuinamente, acho que to cansada do "social", eu quero o que é real.

01 agosto, 2013

Algumas verdades...

Acabo de ser adicionada por um amigo a um grupo chamado "Jovens advogados", entrei, olhei e decidi sair, sem nenhuma cerimônia e nenhum remorso, sai e pronto, porém, isso acendeu em mim algo que eu pensava ontem antes de dormir...
Eu não me identifico mais com a minha profissão, eu não gosto mais de pertencer a classe dos advogados, juristas ou qualquer coisa do tipo, não gosto, não quero, não me sinto em casa, não sinto vontade de defender essa classe, demorei muito para assumir isso PRA MIM e mais ainda pra assumir para as outras pessoas, na verdade, muitas ainda acham que eu gosto, deixo que achem.
Em 2011, eu trabalhava em um escritório que eu amava, sonhava em ser advogada trabalhista e mais tarde me tornar juíza do trabalho, estava no 4º ano da faculdade, o direito era uma paixão na minha vida e era dele que eu queria viver e aí meu tio foi assassinado e isso mexeu com a minha cabeça de tal forma que eu mudei, me tornei outra pessoa, ou voltei a ser quem eu era, não sei e durante um tempo fiquei um tanto quanto perdida...
Em agosto daquele ano, depois de uma conversa com o chefe, sai do escritório.
Durante meses essa conversa ecoou na minha cabeça, eu não sabia pq, eu só sabia que ele ter me perguntado se eu realmente gostava do direito me incomodava mais do que devia, passei bastante tempo remoendo isso, ora, que absurdo, é claro que eu gosto, eu estou no QUARTO ANO da faculdade, eu não perdi anos da minha vida! Eu amo o direito, eu amo, eu amo, eu não amo... oh shit!
Demorei quase um ano inteiro depois daquela conversa para assumir para mim que eu não gostava mais do direito e só consegui assumir de verdade quando retornei pro meu ativismo.
Há muito tempo eu leio e me informo sobre parto, durante um tempo eu fui muito presente em grupos do orkut, depois sai e me distanciei desse mundo, apesar de ter plena convicção de que meus filhos nascerão em casa há anos, eu deixei de viver naquele meio e a verdade é que em algum ponto da história, eu me perdi de mim e só me reencontrei quando meu tio foi morto, a morte vista de tão perto e de forma tão violenta me fez dar valor a outras coisas e aí eu fui incluída em grupos pró-parto no facebook e comecei a ler de novo e a me apaixonar de novo e de repente... Meu Deus, pq eu to no último ano de direito? Pq não fiz obstetrícia? Eu devia estar em São Paulo e não em Franca... meu Deus, meu Deus, meu Deeeeus!
E eu pirei...
Grande parte do meu último ano da faculdade eu sofri, eu chorei, eu me culpei pela escolha errada, foi difícil e foi dolorido, eu me formava em algo que eu não gostava mais. Me distanciei dos amigos da faculdade também, eles não falavam mais a minha língua, aqueles papos cheios de termos jurídicos e matérias e tudo não me apeteciam mais, eu gostava mesmo era de levar o notebook pra aula e enquanto o professor falava seu juridiquês, eu aprendia mais um pouco sobre o universo do qual me sinto parte e assim eu conseguia suportar os dias em Franca.
HOJE, quase dois anos depois da conversa que me cutucou, eu sei que isso me incomodou tanto pq ele havia percebido algo que eu não queria assumir.
HOJE, eu me vejo de outra forma, eu sou mais livre e tenho me afastado de tudo que não me faz bem, que não me interessa, me tornei muito mais naturalista.
HOJE, eu me sinto a vontade para dizer: Amigos do Direito, eu não sou uma de vocês, eu os amo, acreditem, mas sou de outra tribo e nessa tribo eu sou muito mais feliz, não me cobrem sucesso nessa profissão, ele não me interessa.
HOJE, eu consigo, finalmente, enxergar o caminho que precisarei trilhar para finalmente mudar de profissão, afinal, o direito tem tanta gente boa e competente, ele não precisa de mim, agora a humanização precisa, ainda somos poucos, ainda somos formiguinhas lutando para mudar o sistema obstétrico do país.
HOJE, eu estou muito mais em paz, ainda bem. =)

06 julho, 2013

Sonhos, filhos, hostilidades e diferenças...

Todo mundo tem um sonho...
Alguns sonham coisas grandes, planejam a riqueza...
Outros almejam o conhecimento, ah que delícia, a faculdade, o mestrado, o doutorado...
Conhecer o mundo todo é o sonho de outros...
Ter uma casa grande, ter uma casa com piscina... ter apenas uma casa...
São tantas possibilidades...
São tantos sonhos...
E todo mundo acha normal tudo isso...
Acham normal quem quer casar...
Acham normal quem quer ter casa...
Quem não quer ter filhos...
Tudo normal, tudo normal...
Ah, mas vou eu dizer que quero ter filhos e CRIÁ-LOS, assim, como as mulheres de antigamente, sem trabalhar...
Quero parir em casa...
Quero usar fraldas de pano...
Quero colocá-los no sling...
Quero viver dia após dia ao lado daquela pessoinha que eu hei de colocar no mundo...
Eu sou A esquisita, todos olham estranho, alguns riem sem a menor cerimônia, escuto muitas vezes coisas como:
Sonhadora, hein?
Nasceu em 1950?
Ninguém morre pq a mãe sai pra trabalhar!
Ninguém morre por ir pro berçário aos 6 meses!
Larga de ser boba, menina, que coisa ultrapassada!
Vc precisa focar na carreira... C-A-R-R-E-I-R-A!
HA HA HA, ela acha que é índia, coitada!
E muitas outras indelicadezas que as pessoas poderiam guardar dentro de suas bocas idiotas...
Eu poderia citar aqui inúmeros artigos científicos que embasam meus motivos para tudo isso, acredite, querido espelho, eu ESTUDEI sobre cada um dos assuntos e sei citar de trás pra frente os benefícios, mas não é isso que tá me incomodando, as pessoas me entenderem é (quase) indiferente pq não é modinha, não é coisa de menina mimada, é modo de vida, to segura com essas opções e pronto, a opinião dos outros é só a opinião dos outros, quer dizer... menos a de UMA pessoa no mundo!
Veja bem, querido espelho, desde que o mundo é mundo, para nascer uma terceira pessoa, antes é necessário que homem + mulher façam SEXO... 50% de um... 50% de outro e pronto, bebê fofo e lindo feito!
Eu nunca fui pessoa romântica, esse papo de príncipe e princesa sempre me cansou um pouco (zZZzzzZzZ), casamento nunca foi minha praia... NUNCA, NUNQUINHA, NUNCÃO!
Na verdade, uma vida inteirinha, eu me perguntei pq diabos uma criatura queria casar pra precisar fazer TUDO o que não faz morando com os pais... mas, ok, sonho é sonho e cada um com o seu...
Até certa idade, eu não queria casar, aí as pessoas me diziam que para ter filhos, eu precisaria casar e ninguém imagina o alívio que eu senti ao descobrir que existia a tal produção independente, tinha me encontrado no mundo!
Aí todo mundo me criticou, filho precisa ter pai e blábláblá...
Eu me apaixonei, comecei a namorar e a ideia do casamento não era mais tããão absurda assim, ainda era estranha, mas não absurda...
Eu terminei um namoro...
Eu terminei o segundo namoro...
E eu amadureci e passei a achar que filhos MERECEM ter bons pais, podem não ter, mas se tiverem, que sejam bons e passei a desejar que meus filhos tivessem um bom pai...
Aí eu reencontrei o cara e julguei que ele é o príncipe da minha vida, logo eu que sempre me cansei com esse papo e pasme, espelho amado, eu quis me casar com ele...
Quis muito...
Quis demais...
Quis enlouquecidamente até que...
A convicção dele bateu de frente com o meu sonho de vida...
E eu ouvi que eu sou folgada por não querer trabalhar para criar meus filhos, que se eu trabalhar viveremos melhor, que é absurdo uma mulher ter que pedir dinheiro pro marido até pra comprar calcinha e a pior de todas as frases... que ele não quer uma mulher que não trabalhe...
E aí eu brochei com a ideia do casamento...
E comecei a me perguntar pq mesmo eu devia casar para fazer tudo o que eu não faço morando com meus pais...
E a pensar que somos muito diferentes...
E a achar que ele, como todo o resto do mundo, não é capaz de entender os meus sonhos...
E a frase "não quero uma mulher que não trabalhe" para mim foi o mesmo que dizer "eu não quero VOCÊ"...
Sou extremista, desculpa mundo, mas eu sou e eu me pergunto de que vale ter "alguém" do lado se essa pessoa não é meu companheiro o suficiente pra embarcar no meu sonho?
E eu penso em looping, desde a frase fatal, que se eu vou ter que abrir mão de viver meu sonho por inteiro, então é indiferente tê-lo ou não ao meu lado...
E eu amo, acreditem, como eu amo, amo demais, amo enlouquecidamente essa criatura...
O meu problema está longe de ser falta de amor, não é isso...
O meu problema é querer respeito pelo meu sonho...
É querer que a pessoa embarque comigo...
Que diga: Nosso filho é mais importante do que dinheiro, cuide dele se é isso que você quer!
Pq se não for assim, eu me pergunto SIM se vale a pena viver com aquela pessoa... me perdoa, mas é inevitável!
Mas isso só me machuca profundamente, só me causa quase uma ferida de morte e dói, dói, dói por causa do amor ensandecido que eu sinto, pela primeira vez na vida, eu achei alguém que me fez ter vontade de casar e esperei, talvez inocentemente, que essa pessoa abraçasse o MEU sonho como eu tento dia após dia, abraçar o dele, pq acreditem, não é fácil, mas eu faço e faço pq eu não quero ser só namorada, amante, esposa, eu quero ser COMPANHEIRA e eu suporto o mundo por ele... eu suporto a distância, eu suporto a insegurança, suporto, suporto, suporto pq se ele está feliz, então eu fico feliz... querer reciprocidade é pedir demais?!


21 junho, 2013

Muito prazer meu nome (não) é otário ou Jogaram mentos na geração Coca-cola

Como todos os dias, hoje acordei tarde, já passava das 13 hs...
Como todos os dias, levantei e fui pro computador e assim fiquei até uma amiga ligar:
- Vamo pra manifestação, Ritinha?
- Vamo! Que hora nos encontramos?
- Vi no face o povo combinando ás 17 na frente do teatro
- Então nos encontramos 16h50 na sorveteria, ok?
- Ok.
Sentei de novo e permaneci na minha costumeira inércia, pensava com certa dose de preguiça que precisaria levantar, tomar banho e me vestir para ir nessa manifestação, pensava que havia brigado com meu namorado PM para ir até lá, ele achava inseguro, garanti que voltaria inteira para casa e pensava que eu precisava fazer algo, sair do sofá, lutar de alguma forma.
Me olhei no espelho e vi ali uma menina... morena, cabelos lisos, longos e bem cuidados, até que bonita e com uma cara de quem não tem nenhum motivo para reclamar da vida, nenhum motivo para se manifestar...
Precisava arrumar minhas coisas para ir até lá, troquei minha bolsa daquela marca famosa com o macaco pendurado por outra, lateral, com o mesmíssimo macaco pendurado, coloquei dentro um casaquinho importado que eu adoro, CNH e dinheiro para o ônibus com certo pesar por não poder ir de carro, olhei aquilo tudo e pensei de novo que não tinha nenhum motivo para me manifestar... sai de casa.
No ônibus, as pessoas me olhavam com certa desconfiança, não sei se o motivo era eu não ter cara de quem usa o transporte público, não sei se por eu vestir branco e todos saberem que essa era a cor das manifestações, mas em mim crescia uma sensação boa, sensação de finalmente estar fazendo alguma coisa... cheguei, encontrei a amiga e fomos andando até o local da manifestação.
Um mar de gente, gente jovem, gente bonita, gente unida, meu Deus, que coisa linda, euforia!
Andamos por horas, cumprimos o trajeto, uma força, uma paz, olhava a polícia e estavam tranquilos, ninguém dava motivo para confrontos, quando alguém fazia algo que não era legal, as pessoas vaiavam, desencorajavam... PAZ, PAZ, PAZ!
Hino Nacional, cartazes escritos com criatividade sem igual, animação, união, paz (de novo!) e aquela sensação boa que só crescia, eu estava finalmente saindo do sofá e que legal ninguém queria confusão, nenhum sinal de vandalismo... que lindo, que lindo!
3 horas depois e o cansaço começou a aparecer, junto dele veio a fome...
- Vamos embora?
- Vamos comer?
- Vamos!
E assim fizemos o caminho contrário, sentimos que era hora de deixar a manifestação, sentar e comer, descansar antes de pegar o ônibus para casa... sentamos e o celular começa a tocar
- Filha onde você tá? - minha mãe diz
- Táta onde você está? - pergunta minha irmãzinha por inbox no facebook
- Ritinha, você tá bem? - é o que diz o SMS de uma amiga
- Cadê você? - me pergunta minha prima dos EUA pelo whatsapp
Comento com minhas amigas que algo aconteceu, estranho todo mundo querer saber de mim de uma hora para outra, respondo a todos que estou bem, pergunto a minha amiga o que houve, recebo como resposta que um garoto foi morto por atropelamento, meu Deus, não acredito... vamos para casa.
No ônibus voltando, todos olham meu rosto pintado, eu olho o celular, atônita e triste, é inacreditável que uma pessoa acelere o carro em cima de jovens que apenas estão querendo ter voz ativa nesse país, ver as coisas melhorar, que de alguma forma querem lutar, é inacreditável como um ato monstruosamente egoísta tenha estragado a noite de vinte e cinco mil pessoas, tenha destruído uma família, levado embora os sonhos daquele jovem...
Penso: É um monstro!
Isso, só um monstro seria capaz de um ato desses, mas aí eu me lembro que ainda vivo no país da impunidade, onde tudo termina em pizza...
Voltei para minha realidade, para o meu computador, meu sofá, com a sensação de ter vivido uma experiência linda, com a vontade de continuar lutando e triste, muito triste por terem transformado isso tudo em uma tragédia, sinto como se o conhecesse, desejo que sua família tenha a justiça que merece, desejo que o começo dessa mudança seja esse assassino sendo preso, que seu dinheiro não consiga comprar liberdade.
#vemprarua